Acho estranho... ouvir os pré-conceitos a propósito deste ou daquele “deficiente”… Sempre achei. E sei que fui criada nesta sociedade e, também eu, direi coisas e farei coisas que, pensando bem, são impróprias – os preconceitos são isso e são-nos incrustados desde cedo… - mas tento educar-me.
Muitos não entendem que, afinal,
somos todos diferentes, que deficiências há muitas, e bem graves são essas de
não se ter respeito pelo próximo, não se saber estender a mão numa qualquer
situação
- de um segurar a porta a um
qualquer cidadão, ainda que tenha o cérebro como eles gostam, se mexa como eles
gostam e se vista como eles gostam…
(e só porque é um ser humano como eles!)
- ao perguntar a alguém que veja
mal, se mova com dificuldade… se precisa de algo
(e só porque é um ser humano como eles!)…
Usam a mão para apontar…
Foram mal-educados e, ainda que
tenham cérebro funcional, não o usam para pensar e decidir o que está certo
(para se educarem) e, por isso, apontam e não aceitam, afastam-se de qualquer
um que não siga exatamente a norma, essa norma vendida em revistas e novelas,
que produz gente igual e de plástico, com muito pouco interesse, a moda onde
não há gordas, não há coxos, não há cadeirantes, não há cegos, surdos… - e só
existe algo, quando se cai no meio do filme…
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Carta de uma mãe a um amigo:
Falo-te na pele de mãe, mas garanto-te que, antes de o ser, já
encarava essa coisa de deficiência como apenas uma diferença, uma caraterística
a que, sim, temos de dar apoio, muitas vezes, mas que não deve ser exclusiva
[do verbo excluir], deve sim a sociedade planear-se contando com todos. E mãe,
mãe de alguém que tem uma dessas particularidades que muitos apontam a dedo.
Por isso, quero revelar um pouco do que é ser mãe…
Ser mãe, é ter de proteger os filhos da maldade, do gozo perverso e vil até dos colegas de escola que são incitados por pais que nunca souberam o que é viver em sociedade; até de professores que nunca mereceram esse nome - que devia ser uma honra e uma carreira merecedora de especial louvor na sociedade - e são, por vezes, tão ignorantes que complicam o que é fácil e cerceiam o desenvolver dos nossos filhos;
Ser mãe, é ser gorda, esquelética,
desgrenhada, desdentada, de saúde arrombada e descanso e convívio inexistentes,
pois tem-se que o ser sempre… e não há tempo para cuidar da saúde, e muito
menos da aparência; […e os pais, poucos sabem o que é ser pai, o que é ser
responsável pelos filhos – há os que debandam por cobardia, e os que debandam
por divórcio (acaba a magia, ou acaba a coragem), pois há desgaste acrescido,
e… quase sempre esquecem que “o problema” (é triste, mas só o veem assim) é de
ambos, o filho é de ambos…; bem-hajam os que são homens, integrais, humanos,
responsáveis];
Ser mãe, é ser agredida em
reuniões de pais; é ser violentada em guichets, em salas de espera… - porque é
violento, desumano, que se ache que prioridade, horário reduzido ou adaptado,
subsídios de apoio são “privilégios”… e somos agredidas, violentadas, em mil e
mais um dos lugares a que vamos… e ninguém, para além de não ajudar a segurar a
porta, que seja, entende que estamos exaustas por ser tudo e algo mais para
esse filho que precisa… que essa coisa chamada “estado”, e que devíamos ser
todos nós, uma sociedade saudável e feliz, não dá os apoios necessários – nem
há a “auxiliar” para a sala de aula, nem há consultas eficazes que não façam
perder um dia inteiro para que o nosso filho seja visto 4 minutos por um médico
que apenas… que não faz nada que justifique, na maior parte das vezes, o
sofrimento que é ir, num corrupio de transportes públicos, com tudo o
necessário às costas, à consulta…; et cetera…
Ser mãe, é ver o nosso filho
crescer num quarto de vidro
pequeno para o seu corpo e mente,
e definhar quando chega às paredes…
pequeno para o seu corpo e mente,
e definhar quando chega às paredes…
Partam
essas paredes, por favor…
Eles não
sabem, nem sonham,
quantas almas lindas e ideias gloriosas
se escondem por detrás dessa “deficiência”
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quantas almas lindas e ideias gloriosas
se escondem por detrás dessa “deficiência”
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