Porque é uma força de trabalho, pensei começar chamando-lhe “working girl” mas, como não é só a língua portuguesa que é traiçoeira…
Começou
a trabalhar cedo demais e horas demais - sempre a conheci expedita, eficiente,
pronta para trabalhar e, ainda, concedendo um sorriso aos que com ela lidavam
nas suas funções. Era de tradição familiar não seguir estudos, nem mesmo os
habituais numa classe média-baixa, depois obrigatórios, mas ela era a que mais
trabalhava, sem parar – nos empregos que a não-escolarização lhe permitia.
De
alguns casamentos sobram cicatrizes e filhos, de outros mais cicatrizes de
desrespeito e desprezo.
Quando
a crise da moda também lhe chegou, já
o casamento estava a sofrer, mas aconteceu o inexplicável: ser-lhe cobrado o
estatuto de desempregada, logo a ela, que tanto havia trabalhado desde sempre! –
o “vai mas é trabalhar”, o “não fazes nada todo o dia” (!???), o ridículo
combate a essa força que ganhou para ir estudar de novo (achei que não só por
ela, mas também um exemplo para o filho, já levado na tradição familiar) – mantido,
ainda, quando a estúpida decisão governamental a obrigou a fazer formações para
manter o subsídio de desemprego – ora, o seu companheiro achava aquilo um
desperdício! (Medo que ela possa “ser mais do que ele”?)
Sorriu
quando me disse que tinha já o diploma do secundário, estava feliz, mas, rapidamente,
o canto dos seus olhos humedeceu, quando me confessou que nada melhorara com o
companheiro e não podia, ainda, fugir do sofrimento das recriminações que se
juntaram, desde o desemprego, às comparações depreciativas com as belas e
eficientes 'colegas' pelo companheiro…
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